LGPD no WhatsApp da clínica: fotos e medidas do bebê com consentimento (art. 14)

Retrato de Fernanda Tavares, autora do artigo (LGPD no WhatsApp da clínica)Fernanda TavaresCofundadora do Assimetrias Cranianas Publicado em · Atualizado em · 9 min de leitura

A LGPD no WhatsApp da clínica começa na primeira foto da cabeça do bebê: ela é dado de saúde de uma criança, e a lei trata esse dado com proteção reforçada (arts. 11 e 14). O consentimento dos responsáveis não é a única base legal possível, mas registrá-lo antes de receber fotos e medidas é a forma mais segura de provar que a família sabia para que os dados seriam usados.

Resumo

  • Foto e medida do bebê são dados sensíveis de criança (LGPD, arts. 11 e 14).
  • A ANPD admite outras bases legais para dados de crianças, sempre no melhor interesse delas.
  • Para usar a imagem fora do atendimento, como nas redes, o consentimento específico é indispensável.
  • WhatsApp pessoal mistura dados clínicos com a vida privada e dificulta a guarda e a exclusão.

Por que a foto do bebê é um dado sensível

Porque revela informação de saúde de uma criança, e a LGPD dá a esses dados as regras mais rígidas da lei.

O art. 5º da Lei 13.709/2018 define dado de saúde como dado pessoal sensível. O art. 14 acrescenta que o tratamento de dados de crianças deve ser feito no melhor interesse delas. Uma foto da cabeça com a assimetria visível reúne as duas coisas.

Isso não proíbe o uso: muda o cuidado com a finalidade, o acesso, a guarda e a exclusão. E o WhatsApp é justamente o lugar onde esses cuidados costumam falhar.

Consentimento ou tutela da saúde: qual base legal usar

Para o atendimento, a tutela da saúde pode ser a base; para outros usos, como divulgação, o consentimento específico é necessário.

O art. 11 da LGPD permite tratar dados sensíveis sem consentimento para a tutela da saúde, em procedimento feito por profissionais de saúde. Em 2023, a ANPD publicou o Enunciado CD/ANPD nº 1, que admite tratar dados de crianças com as bases legais dos arts. 7º e 11, sempre no melhor interesse delas [VALIDAR jurídico].

Consentimento ou tutela da saúde: qual base legal usar
Uso da foto ou medidaBase legal mais adequadaPrecisa de consentimento?
Registrar no prontuário e acompanhar a evoluçãoTutela da saúde (art. 11)Não obrigatoriamente; registrar ciência é boa prática
Enviar relatório para outro profissionalTutela da saúde, a pedido da famíliaRecomendado registrar a autorização
Postar nas redes ou em material de divulgaçãoConsentimento específico (arts. 11 e 14)Sim, específico e destacado
Usar em aula ou artigo científicoConsentimento ou anonimizaçãoSim, salvo anonimização efetiva

Quadro de orientação geral, sem valor de parecer. Valide com assessoria jurídica.

Como pedir e registrar o consentimento

O consentimento precisa ser específico, em destaque e dado por um dos pais ou responsável, com data e finalidade claras.

  1. Antes da primeira foto

    Explique para que a foto serve, quem vai ver e por quanto tempo ficará guardada.

  2. Registro

    Guarde o aceite com nome do responsável, data e finalidade. Um "ok" solto no WhatsApp é frágil como prova.

  3. Revogação

    Diga como a família pode retirar a autorização, e cumpra o pedido.

Modelo de frase

"Para acompanhar a evolução da cabeça do(a) [nome], vamos registrar fotos e medidas no prontuário. Só a equipe que atende vai ver. As fotos ficam guardadas pelo prazo legal do prontuário. Você autoriza?" [VALIDAR jurídico]

O problema do WhatsApp pessoal

No WhatsApp pessoal, as fotos ficam na galeria, no backup e em conversas misturadas, sem controle de acesso nem prazo de exclusão.

  • A galeria do celular sincroniza com a nuvem pessoal
  • Qualquer pessoa com o celular desbloqueado vê as conversas
  • Não há registro de quem acessou a foto
  • Excluir a conversa não exclui o backup

O caminho é separar o atendimento num número oficial e levar as fotos para a ficha da criança. Veja como organizar o WhatsApp do consultório.

A ficha que pede o consentimento antes da foto

No prontuário do Especialista Parceiro, o campo de fotos só abre depois do registro do consentimento.

Ver como o prontuário guarda o consentimento

Medidas e relatórios enviados à família

Mandar o relatório para a família é parte do atendimento; o cuidado é não deixar dados clínicos em mensagens automáticas.

O relatório de evolução vai para quem levou a criança, pelo canal combinado. Lembretes automáticos, por outro lado, não devem citar diagnóstico nem medidas. O prontuário guarda o resto, pelo prazo legal, como explica leia também: registro e guarda do prontuário pelo COFFITO e CFM.

Quanto tempo guardar fotos e conversas

As fotos e medidas que fazem parte do prontuário seguem o prazo do prontuário; o restante deve ser apagado quando deixar de ser necessário.

A Lei 13.787/2018 prevê a guarda do prontuário por 20 anos a partir do último registro. Fotos e medidas usadas para acompanhar a assimetria fazem parte do registro clínico e devem ser guardadas junto dele, em local seguro, e não no celular da recepção. Já conversas de agendamento, áudios sobre horários e fotos enviadas por engano não precisam ficar guardadas para sempre.

Uma rotina simples ajuda: ao fim de cada consulta, o que for clínico vai para a ficha do paciente, e o resto pode ser apagado do aparelho depois de um prazo definido pela clínica. Escrever essa regra numa política interna curta mostra cuidado se houver qualquer questionamento.

O que fazer se um celular for perdido

Bloqueie o aparelho, troque as senhas, avalie quais dados estavam ali e, se houver risco às famílias, comunique a ANPD e os responsáveis.

A perda ou o roubo de um celular com fotos de bebês e conversas com famílias é um incidente de segurança. O primeiro passo é bloquear e apagar o aparelho remotamente, se possível, e encerrar as sessões do WhatsApp em outros dispositivos. Em seguida, liste que tipo de dado estava no aparelho e de quantas famílias.

Quando o incidente pode causar risco ou dano relevante, a LGPD prevê comunicação à ANPD e aos titulares. Ter os dados no prontuário, e não espalhados em celulares, reduz muito o tamanho do problema e a chance de ele acontecer.

Um roteiro para adequar a clínica em um mês

Em quatro semanas: mapear onde estão os dados, ajustar os termos, mudar o fluxo das fotos e treinar a equipe.

Na primeira semana, liste onde ficam fotos, medidas e conversas: celulares, computadores, nuvem, sistema. Na segunda, revise o termo de consentimento para fotos e o aviso de privacidade do atendimento. Na terceira, mude o fluxo para que as fotos sejam tiradas e guardadas no sistema da clínica, e não na galeria pessoal.

Na quarta semana, faça uma conversa curta com a equipe sobre o que mudou e por quê. A adequação não precisa ser perfeita de primeira; o importante é sair do improviso e ter um registro do que foi feito.

Publicar a foto do bebê nas redes

Só com consentimento específico para isso e dentro das regras do seu conselho.

A autorização para o prontuário não vale para o Instagram. Se quiser publicar, peça de novo, explicando onde a imagem vai aparecer, e evite qualquer elemento que identifique a criança. As regras de cada conselho estão em leia também: o que o seu conselho permite mostrar no perfil.

Perguntas frequentes

Um "pode sim" no WhatsApp vale como consentimento?

É uma prova fraca. O ideal é registrar nome do responsável, data e finalidade num lugar que não se perca.

Os dois pais precisam autorizar?

A LGPD fala em consentimento de pelo menos um dos pais ou do responsável legal (art. 14, §1º).

Posso guardar as fotos no Google Drive?

Pode, se o acesso for restrito, houver controle de quem vê e o contrato do serviço cobrir dados sensíveis [VALIDAR jurídico].

A família pediu para apagar as fotos. E o prazo do prontuário?

O prontuário tem prazo legal de guarda. Explique isso à família e apague o que não faz parte do prontuário, como cópias no celular.

Preciso de um encarregado (DPO)?

A ANPD dispensa agentes de pequeno porte em alguns casos, mas exige um canal de atendimento ao titular [VALIDAR jurídico].

Fotos e medidas na ficha, não na galeria

O prontuário do Especialista Parceiro registra o consentimento e guarda as fotos com acesso controlado.

Ver como o prontuário guarda o consentimento

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